Procedimentos

Histerossonossalpingografia: avaliar as trompas sem radiação

O exame que avalia trompas e útero por ultrassom, sem radiação e sem contraste iodado. Como é feito, o preparo e como ler o resultado.

Ilustração do útero e das tubas uterinas, com o trajeto do contraste indicado
Procedimentos

A histerossonossalpingografia avalia, num exame só e sem radiação, duas coisas que a investigação da infertilidade precisa saber: se as trompas estão pérvias e como está a cavidade do útero por dentro. Ela usa ultrassonografia transvaginal com infusão de uma solução de contraste — não raio-X, não contraste iodado — e é acompanhada em tempo real, na tela, enquanto acontece.

O que o exame responde

A infertilidade do casal tem um roteiro de quatro perguntas, e este exame responde duas delas de uma vez. A primeira é o fator tubário: o líquido injetado pelo colo do útero percorre a cavidade, entra nas trompas e extravasa para a cavidade abdominal — e é esse extravasamento, visto na tela, que prova a permeabilidade. A segunda é o fator uterino: com a cavidade distendida pelo líquido, o ultrassom enxerga o contorno interno do útero com uma nitidez que o exame sem distensão não alcança.

Nessa mesma sessão ainda se avalia o que a ultrassonografia transvaginal já avaliaria: volume e posição do útero, aspecto dos ovários e a contagem de folículos antrais, que é um dos dois marcadores de reserva ovariana. Na prática, uma paciente que faria três idas ao serviço em dias diferentes do ciclo resolve o essencial em uma.

  • permeabilidade das trompas, direita e esquerda, avaliadas separadamente;
  • contorno da cavidade uterina — pólipos, miomas submucosos, sinequias, septo;
  • sinais de malformação uterina que pedem investigação complementar;
  • volume, posição e aspecto do útero e dos ovários;
  • contagem de folículos antrais, quando feito no início do ciclo.

A diferença para a histerossalpingografia

O exame clássico de trompas é a histerossalpingografia: raio-X com contraste iodado, feito em serviço de radiologia. Ele funciona e segue amplamente usado. A histerossonossalpingografia é a alternativa por ultrassom, e as diferenças entre as duas não são de detalhe.

  • Radiação — a histerossalpingografia usa radiação ionizante; a histerossonossalpingografia, nenhuma.
  • Contraste — uma usa contraste iodado, com o risco de reação que isso implica; a outra usa solução salina ou um contraste ecogênico específico.
  • O que mais se vê — o raio-X mostra a silhueta da cavidade e das trompas; o ultrassom mostra a cavidade E a parede do útero, os ovários e os folículos.
  • Tolerância — a literatura registra menos dor relatada na histerossonossalpingografia, ainda que a cólica exista nas duas.
  • Onde é feito — a de ultrassom pode ser realizada em consultório com equipamento adequado, sem depender de agendamento em serviço de radiologia.

A escolha entre as duas não é automática, e nenhuma substitui a outra em todos os casos. Diante de suspeita específica de obstrução distal com hidrossalpinge, ou quando o serviço precisa de um registro radiológico para planejamento cirúrgico, a histerossalpingografia pode seguir sendo a indicada. A decisão sai da consulta, com a história na mão.

Quando é indicada

  • investigação inicial de infertilidade, como parte do roteiro do casal;
  • suspeita de fator tubário — doença inflamatória pélvica prévia, endometriose, cirurgia pélvica ou apendicite complicada no histórico;
  • antes de uma inseminação intrauterina, que só faz sentido com pelo menos uma trompa pérvia;
  • avaliação da cavidade antes de um tratamento de reprodução assistida;
  • suspeita de pólipo, mioma submucoso ou sinequia levantada em ultrassonografia de rotina;
  • investigação de perdas gestacionais de repetição, no componente uterino;
  • reavaliação depois de um procedimento histeroscópico, para confirmar o resultado.

Existem situações em que o exame não deve ser feito: gravidez em curso ou suspeita de gravidez, infecção pélvica ativa, sangramento uterino importante no momento, e infecção vaginal ou cervical não tratada. Por isso a avaliação prévia e o momento certo do ciclo não são formalidade.

O preparo e o dia do exame

O exame é realizado na primeira fase do ciclo, depois do fim da menstruação e antes da ovulação — em geral entre o sexto e o décimo segundo dia, contados do primeiro dia da menstruação. A janela existe por dois motivos: o endométrio está fino, o que melhora a visualização da cavidade, e não há risco de uma gestação inicial em curso.

  • não ter relação sexual desprotegida desde o fim da menstruação, pelo risco de gestação inicial;
  • tomar o analgésico ou anti-inflamatório orientado cerca de uma hora antes, para reduzir a cólica;
  • não é necessário jejum, e a bexiga deve estar vazia;
  • levar exames anteriores, sobretudo ultrassonografias e qualquer avaliação prévia de trompas;
  • comunicar alergias, uso de medicações e a possibilidade de estar grávida.

O exame em si dura cerca de quinze a vinte minutos. A paciente fica em posição ginecológica; um espéculo é colocado e um cateter fino e flexível atravessa o colo do útero — é o momento de maior desconforto, comparável ao de um preventivo. O espéculo é retirado, o transdutor transvaginal entra, e a solução é infundida devagar enquanto a imagem é acompanhada na tela.

A cólica é o efeito mais comum, de intensidade parecida com a de uma cólica menstrual, e cede em minutos a poucas horas. Pequeno sangramento e saída de líquido pela vagina no restante do dia são esperados. A paciente volta à rotina no mesmo dia; não há sedação, e não é preciso acompanhante.

Como ler o resultado

O laudo descreve cada trompa separadamente, e a leitura muda a conduta de forma direta:

  • Ambas pérvias — o fator tubário está afastado. A investigação segue para os outros fatores, e caminhos como a inseminação intrauterina continuam abertos.
  • Uma pérvia, outra obstruída — a gravidez espontânea segue possível e a chance mensal é menor. A conduta depende de idade, reserva ovariana e fator masculino.
  • Ambas obstruídas — a fertilização in vitro passa a ser o caminho indicado, porque ela contorna a trompa por completo. Foi exatamente para isso que a FIV nasceu.
  • Trompa dilatada com líquido retido (hidrossalpinge) — exige conduta própria: o líquido pode refluir para a cavidade e reduzir a implantação, e a orientação consolidada é tratá-la antes de uma transferência embrionária.
  • Alteração da cavidade — pólipo, mioma submucoso, sinequia ou septo levam à histeroscopia, que enxerga por dentro e, na mesma ocasião, trata.

Há uma limitação que precisa ser dita: espasmo tubário pode simular obstrução, sobretudo quando a paciente está tensa ou com dor. Uma trompa descrita como não pérvia em um exame isolado nem sempre está obstruída de fato — e é por isso que o resultado se lê junto com o restante da investigação, nunca sozinho.

Um detalhe conhecido e bem-vindo: como a histerossalpingografia, este exame tem pequeno efeito terapêutico. A passagem do líquido desobstrui aderências muito finas, e há registro de discreto aumento da taxa de gravidez espontânea nos meses seguintes ao exame.

O exame em Brasília

A Dra. Maria Eduarda Amaral atende em Brasília, no Centro Clínico Sul, na Asa Sul, e a avaliação da permeabilidade tubária faz parte do roteiro de investigação do casal — solicitada já na primeira rodada de exames, junto com a avaliação da reserva ovariana e o espermograma.

A definição de qual exame fazer, e em que ponto do ciclo, sai da consulta: ela considera o histórico, o que mais precisa ser avaliado no mesmo momento, a tolerância e a necessidade de evitar radiação. Exame pedido fora da janela do ciclo costuma precisar ser repetido, e repetir custa um ciclo inteiro.

Perguntas frequentes

Histerossonossalpingografia: o que mais perguntam

Histerossonossalpingografia dói?

Costuma causar cólica de intensidade parecida com a de uma cólica menstrual, concentrada no momento da passagem do cateter e da infusão do líquido, e que cede em minutos a poucas horas. O analgésico orientado cerca de uma hora antes reduz bastante o desconforto.

Qual a diferença entre histerossalpingografia e histerossonossalpingografia?

A histerossalpingografia usa raio-X e contraste iodado. A histerossonossalpingografia usa ultrassonografia transvaginal com infusão de solução de contraste: não tem radiação, costuma ser mais bem tolerada e avalia, no mesmo exame, a cavidade uterina, os ovários e a permeabilidade das trompas.

Em que dia do ciclo fazer o exame?

Na primeira fase, depois do fim da menstruação e antes da ovulação — em geral entre o sexto e o décimo segundo dia do ciclo. O endométrio fino melhora a visualização, e a janela afasta o risco de uma gestação inicial em curso.

Preciso de acompanhante ou de repouso depois?

Não. O exame não usa sedação, dura cerca de quinze a vinte minutos e a paciente retoma a rotina no mesmo dia. Cólica leve, pequeno sangramento e saída de líquido pela vagina nas horas seguintes são esperados.

O exame pode ajudar a engravidar?

Existe um efeito conhecido e discreto: a passagem do líquido desobstrui aderências muito finas, e há registro de pequeno aumento da taxa de gravidez espontânea nos meses seguintes. Não é o objetivo do exame, que é diagnóstico, mas é um benefício documentado.

Trompa descrita como obstruída significa que não vou engravidar naturalmente?

Não necessariamente. Espasmo tubário pode simular obstrução, e obstrução de uma só trompa mantém a gravidez espontânea possível. O resultado é lido junto com o restante da investigação — idade, reserva ovariana e espermograma —, nunca isolado.

Fontes e referências

Conteúdo educativo, baseado em diretrizes de sociedades médicas. Não substitui consulta médica: a avaliação de cada caso é individual e acontece em consulta.

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